Em 2022, 23 milhões de peças de roupa devolvidas foram parar em aterros sanitários ou incineradores apenas no Reino Unido. O resultado desse descarte mal gerido foi a emissão de cerca de 750 mil toneladas de CO₂ por ano. Embora esses números venham do varejo de moda internacional, o problema está longe de ser local ou setorial — ele é global.
No Brasil, entre 2010 e 2019, a quantidade de resíduos sólidos descartados de forma inadequada cresceu 16%, saltando de 25,3 para 29,4 milhões de toneladas anuais. Esses dados não são estatísticas isoladas. Eles representam o rastro ambiental que operações mal estruturadas estão deixando para trás.
Durante anos, ESG foi tratado como discurso institucional, algo “bonito” para relatórios. Hoje, isso mudou. ESG deixou de ser um diferencial e passou a ser uma questão de sobrevivência operacional e reputacional. Não se trata mais de opinião — é matemática pura. Empresas que ignoram práticas de economia circular perdem competitividade, margem e relevância.
A legislação brasileira já aponta esse caminho há mais de uma década. Desde 2010, a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS – Lei 12.305) estabelece a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos. E, além do regulador, o consumidor também está cobrando.
Pesquisas mostram que 66% dos consumidores aceitariam pagar mais por experiências ambientalmente responsáveis. Para Millennials e Gen Z, a escolha da marca vai muito além do produto: envolve valores, posicionamento e impacto real. Eles não compram apenas o que você vende — compram o que você representa.
A pergunta incômoda, então, precisa ser feita: quantas toneladas de CO₂ sua Black Friday gerou? Quanto do que foi devolvido virou lixo simplesmente porque recondicionar parecia “caro demais” ou trabalhoso?
Algumas empresas decidiram responder a essa pergunta com ação — e estão colhendo vantagem competitiva real.
A Natura, por exemplo, estruturou sistemas de coleta de embalagens, recompensa clientes e reduz resíduos, transformando sustentabilidade em branding e fidelização. A Reciclanip já recolheu milhões de pneus para destinação correta, combinando impacto ambiental e social. O McDonald’s Brasil reaproveita óleo usado para produzir biocombustível para sua frota, aplicando economia circular com ganho operacional.
O que esses cases têm em comum?
Eles transformaram uma obrigação legal em estratégia de crescimento.
Economia circular não é caridade. É vantagem competitiva concreta. Quando uma empresa recondiciona e reintegra produtos devolvidos ao ciclo de vendas, ela reduz custos de matéria-prima, gera novas fontes de receita via recommerce, diminui sua pegada de carbono e fortalece sua marca diante de consumidores cada vez mais conscientes. Além disso, se antecipa à regulamentação e reduz riscos de multas e restrições futuras.
O custo real não está em fazer. Está em não fazer.
Ignorar ESG significa assumir riscos claros: multas pela PNRS, clientes migrando para marcas mais responsáveis, reputação abalada por descarte irregular, aumento contínuo dos custos de insumos e, no futuro, possíveis limitações operacionais impostas por regulações mais rígidas.
Por onde começar de forma pragmática? Com decisões simples e estruturantes: estabelecer políticas claras focadas em recondicionamento, mapear o fluxo reverso para eliminar desperdícios, construir parcerias para reciclar, recondicionar ou revender, automatizar processos para ganhar escala e ser radicalmente transparente sobre o destino das devoluções.
Ferramentas existem. Tecnologia existe. O verdadeiro gargalo é a decisão.
2026 está logo ali. O relógio já virou contra quem insiste em ignorar ESG.
Seu negócio será um líder que antecipa tendências, um seguidor que perde vantagem competitiva ou uma relíquia presa a modelos obsoletos?
ESG não é tendência. É sobrevivência empresarial.
A única pergunta que resta é: quando você vai abraçar a economia circular?
Quanto antes, maior será a vantagem.


